Ela está grisalha já aos 37 anos. As mãos com marcas. Se olha no espelho, abre a tinta, separa o cabelo ao meio, espalha pelas mechas o creme escuro. 30 minutos. Espera. Há manchas na sua bochecha, não consegue tirar, passa algodão, limpa em volta dos olhos. As pálpebras lhe parecem flácidas. Ao redor da boca também. Sua boca está menor. Já teve olhos bonitos. Ainda são. Todas aquelas viagens, todos aquelas páginas de livros, romances que engolia. Todas aquelas músicas que não compôs, mas pretendia, para ficar ali em frente ao espelho deprimente. Os ombros estavam encurvados, ajeitou-se, não fala muito e quando o faz é imbecil e raso.
Sabia que o marido estava comendo alguém. Alguma puta da internet, ele passava horas lá. Sentando imerso nas fotografias, tudo tão ridículo. O casamento tinha se tornado um lugar comum.
Já se passaram 30 minutos. Abre o chuveiro, a água cai um pouco, tomando o rosto, os ombros. O estomago dói. Já não comia bem. Passa a mão pelos cabelos, nas coxas e quadris e sobe um pouco ao redor dos seios. Novamente ela tem um corpo. “nunca consegui me mastubar”. Lamenta.
Coloca um vestido novo, pega a bolsa e sai. O marido estava na sala. Entra no carro, ouve notícias de um homem que se matou e também à sua mãe e sua mulher, mas não atirou no gato. “putz, que merda”. O carro tinha um barulho estranho. “droga! parece bateria. pega. pega. pega”. Reza. “pega. pega, pegou.” Mal consegue chegar ao bar. Uma amiga a espera. Ela tinha traços andróginos. Alta e com feições brutas. Mas seus movimentos eram femininos. “você está bem? parece infeliz.” “to bem.” Sentaram-se, beberam um vinho, dois, três taças e num piscar de olhos, quase duas garrafas.
“viu meu email? gostou do texto?” a amiga pergunta. Como odiava responder estas questões, porque desanda a falar sobre como não gosta disso ou daquilo, e como seria se sua amiga tirasse um parágrafo inteiro que não diz nada e palavras colocadas por puro pedantismo. A amiga era uma escrito muito chata, daquelas que gostam de cuspir pérolas.
Subitamente diz: “to tendo um caso.” “você está bêbada!” A amiga interrompe. “estou e estou. eu bebo muito rápido”. “e o ...”a amiga lhe pergunta séria. “ele não sabe”. “não o deixe saber então”.
“tenho que ir, depois lhe respondo o email e escrevo alguns comentários.” “espera, quero saber mais, fica ai.” “tenho um compromisso”. Levanta-se como louca e sai.
“menti.” Pensa e se arrepende.
Não foi para casa. Estaciona em outro bar. O vinho tinha um significado existencial que a reconfortava. Algumas horas depois, não sabe quantas, chega a sua casa. Suas roupas estavam na entrada do hall, livros rasgados, o marido histérico. “a casa foi assaltada?” pergunta ridiculamente. “não. você está tendo um caso.” “estou?”
Juntou dois mais dois, a amiga contou ao marido. Ele estava comendo a amiga. Aff, muito clichê.
Ela olha fixamente para o canto da sala. Não se importa. Não nega. Não o acusa. Pega algumas roupas e perambula um pouco de madrugada. Estava frio. O amor desacontece.
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ResponderExcluirmt bom. o texto flui sem esforço. gosto das historias "verdadeiras", que mostram como a vida sacaneia as pessoas. as vezes de um jeito bom, as vezes nao rs
ResponderExcluirhttp://a-vontade.blogspot.com/