Terra girando. Amanheceu. Vejo luz entre folhas de árvores. Formas na parede. Cheiro de café na cozinha de alguém. Tem um passarinho cantando. Estou doente. Doente não, morrendo. Minha mãe se magoava com Deus, com meu pai, comigo em me ver assim, e, por isso, não a visitava. Consegui focar os meus olhos um pouquinho. Senti tonteiras pela manhã e o canto de pássaro era alto demais. Era como se estivesse de ressaca o tempo todo, melhor do que a dor. Me levantei, caminhei até o banheiro e senti que os objetos me observavam. Estava magra, contei os ossos. Naquela manhã, como as outras, comi o que dei conta, ouvi música. À tarde febre e filme. Na noite sempre ouço passos. Efeitos de um remédio experimental. Morrer não é tão ruim. É estranho como me lembro de algumas coisas.
Uma vez no verão, fiquei horas rindo com um amigo, trocando histórias. Lembrei de uma: ficamos uma vez perdidos numa serra, quando fomos acampar. Ficou escuro e frio. Não me lembro se a lembrança era minha ou dele. Minha cabeça está confusa.
Sei que deixei São Paulo tempos depois, cidades grandes são construídas para te sugar, se você tivesse sorte, talvez conseguisse algo. Mas sorte é uma coisa que eu não tenho. Sei lá.
Estava fora de São Paulo, quase com vida. Ontem vi alguém em pé ao lado da cama. Ouvi também um homem batendo na mulher, ela gritou, ele bateu a cabeça dela na parede. Depois ficou tudo quieto. Não era a primeira vez que ele batia e nem a primeira vez que senti alguém ofegante ao lado da minha cama. Às vezes, ele conseguia me tocar. Não tenho medo. Eram os remédios, o medico disse que aconteceria alucinações. Verdade, ou não, estava cansada demais para ter medo.
Aquela noite no abandono da casa, o mofo subia pelas paredes, vi uma pessoa, meus olhos gritaram. Era uma sombra triste e eu tecendo imagens irreais. Ou o contrário. De qualquer forma, não dormi.
Tive febre.
A morte me alimentava sem aviso prévio. Talvez ela vá e eu fique. Melhor fechar os olhos. Como dói apenas a vaga Memória de uma canção. A música me corta os pulsos, enquanto corrompe meus ossos, minha carne, meu tempo.
Todas aquelas viagens. Todas aquelas páginas escritas. Tudo o que poderia ser... para morrer sozinha. Ao lado, vejo meu anjo triste. Ali, naquela hora, nada sentir é uma libertação.
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